Os consumidores avaliarão as iniciativas de sustentabilidade das empresas

Peter White, diretor do Conselho Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, acredita que as preferências individuais ajudam a equilibrar o mix socioambiental das empresas.

Imagem: reprodução

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Como as empresas podem contribuir para resolver os principais problemas ambientais e sociais do mundo? O britânico Peter White acredita que elas têm um papel fundamental. E ele também confia que o consumidor saberá avaliar, entre as campanhas de marketing e as diversas formas de investimento em sustentabilidade, quais iniciativas são mais dignas de seu apoio. Peter White é diretor executivo do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (World Business Council for Sustainable Development, ou WBCSD em inglês). A organização foi uma das pioneiras nos anos 1980 a pensar como o mundo poderia oferecer progresso e conforto preservando os recursos naturais e cultivando sociedades saudáveis. Peter White é um dos líderes reunidos no 7º Congresso Internacional Sustentável 2015: O Futuro é Agora. O objetivo é debater os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável pela ONU e do novo grande acordo global do clima em Paris (COP 21). O evento, organizado pelo Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), do Brasil, ocorre no dia 8 de outubro, no auditório do parque Ibirapuera, em São Paulo. Peter White compartilhou sua visão com o Blog do Planeta.

ÉPOCA: Se um ET  pousar na Terra e perguntar o que é essa tal da sustentabilidade, como o senhor explicaria?
Peter White: O conceito parece complicado mas é bem simples. Imagine que o planeta tem bilhões de habitantes. Precisamos garantir que os sistemas sejam saudáveis o suficiente para garantir uma boa qualidade de vida para todos. Isso significa cuidar o meio ambiente para que ele garanta as bases para a sociedade. E também precisamos olhar a sociedade para que ela seja equilibrada. E no fim das contas também significa observar a economia para que ela faça sentido e consiga produzir riqueza para todos. Em outras palavras, no passado nós olhávamos apenas para o capital financeiro para avaliar o estado de uma sociedade ou de um país. Agora precisamos também olhar o capital natural e o capital social.

ÉPOCA: Existe uma concordância geral desse conceito ou impera a confusão?
White: Há ênfases diferentes. Na Europa, por exemplo, costuma-se dar mais atenção aos aspectos ambientais da sustentabilidade. Em outras partes do mundo, a ênfase é mais nos aspectos sociais e econômicos. Mas todo mundo reconhece que não dá para ter um ambiente estável sem uma sociedade saudável ou economia que faça sentido. E que não haverá progresso econômico duradouro se corroermos as bases naturais da geração de riqueza e se a sociedade for disfuncional. O WBCSD partiu da perspectiva que podemos ter um mundo com 9 bilhões de pessoas em 2050. E que precisamos de uma série de ações até 2020 para garantir isso. As empresas associadas ao WBCSD agora estão propondo suas iniciativas e sua visão do que podem fazer em termos de tecnologias de eficiência energética, ou de transportes ou de maior produtividade agrícola para ajudar a conseguir isso. Algumas empresas estão trabalhando juntas em áreas como captura e estoque de carbono (técnicas para produzir energia queimando combustíveis fósseis e injetando o gás carbônico em depósitos subterrâneos para que não vão parar na atmosfera agravando o aquecimento global). Temos um longo caminho pela frente mas estamos identificando o que precisamos fazer.

ÉPOCA: No passado, era fácil comparar o avanço ou não das empresas usando as finanças como indicador. Agora precisamos considerar vários aspectos sociais ou ambientais. Como podemos comparar performance de uma forma objetiva?
White: É para isso que estamos trabalhando com um conceito chamado relato integrado (uma espécie de relatório anual que junta dados financeiros, ambientais e sociais numa mesma avaliação para os acionistas). Se conseguirmos chegar a critérios adequados para isso, finalmente teremos capacidade para avaliar os custos reais e os valores reais do que uma empresa fornece para a sociedade. Hoje, os relatórios de sustentabilidade (com as considerações ambientais e sociais) ainda estão separados do relatório financeiro. Mas com o tempo a tendência é que virem um produto só. Mas mais importante do que os relatórios, é como os países ou empresas podem avaliar o valor dos aspectos sociais e ambientais para tomar decisões. O WBCSD participa de um esforço para criar critérios e técnicas para isso. É claro que não poderemos monetarizar tudo. Esses indicadores sociais e ambientais não vão virar quantias de dinheiro. Termos que aprender a compará-los e avaliar os prós e contras de decisões e investimentos. Estamos fazendo uma consulta e acreditamos que teremos um protocolo para o capital natural em junho do próximo ano.

ÉPOCA: O senhor acha que em algum momento poderemos colocar duas empresas lado a lado e realmente comparar qual foi melhor nos aspectos sociais, ambientais e econômicos com uma conclusão clara?
White: Hoje conseguimos fazer isso de forma financeira. Mas mesmo assim não há uma única forma de ser melhor. Depende do objetivo daquela empresa. Ela pode estar numa fase de lucrar mais ou investir mais. De ganhar margem ou de ganhar mercado. É complicado. Com os aspectos ambeintais e sociais, também vai depender de qual é o seu propósito principal. Pode ser reduzir as mudanças climáticas, ou preservar os ecossistemas, ou criar habilidades na mão de obra. Independente disso, ter as informações certas ajuda.

ÉPOCA: A maioria das grandes empresas investe pesado em marketing para dizer que estão fazendo coisas bacanas na área de sustentabilidade. Como o consumidor pode saber quem realmente está se dedicando além das palavras bonitas?
White: Um dos critérios é avaliar os produtos. Ver se os produtos realmente contribuem para a socieade ou para o meio ambiente. Além disso, dá para olhar o desempenho ambiental e social da empresa. Os relatórios de sustentabilidade são abertos.

ÉPOCA: Mas vamos para o mundo real. Vou ao supermercado para comprar leite. Uma marca diz que é orgânica, outra diz que apoia uma iniciativa social e a terceira diz que tem propriedades nutricionais mais saudáveis. Qual devo escolher?
White: Bem. Depende do que é relevante para você. Se você gosta da proposta, escolha aquele produto. É a escolha do consumidor. Desde que a informação seja verdadeira, podemos deixar a decisão da escolha por conta do consumidor.

ÉPOCA: Será que o consumidor sozinho tem informação e conhecimento suficiente para, a partir de suas preferências individuais, escolher o que é melhor para a sociedade?
White: Os consumidores sabem o que é melhor para eles. Depende dos valores individuais. Não quer dizer que o projeto A seja melhor do que o B. Mas cada consumidor decidirá apoiar o que mais tiver a ver com suas inclinações. E no cômputo geral tenderemos a ter uma decisão que traduz a vontade geral.

ÉPOCA: O senhor acredita em alguma taxa de carbono?
White: O WBCSD vem traçando cenários para uma economia de emissão zero de carbono. Entre as várias medidas para chegarmos nesse ponto, está um sistema de metas de emissão e trocas de créditos. E também algum preço para o carbono. Isso é essencial para internalizarmos nos custos de produção o preço que a sociedade paga pelas emissões de gases que perturbam o clima. É a melhor forma de fazer isso com simplicidade e transparência. Existem várias formas de fazer isso. Uma delas é estabelecer um limite de emissões e deixar as empresas trocando créditos que terão um custo. Outra forma é criar algum imposto pela emissão do carbono. E outra pode ser a regulamentação pura e simples. São formas diferentes de criar um custo para essas emissões. Isso permitirá finalmente comparar o preço das tecnologias limpas de forma justa e competitiva. Mais de mil empresas de grande porte já se comprometeram incluir o custo de suas emissões numa espécie de contabilidade paralela. Boa parte delas declara suas emissões no Carbon Disclosure Project. Elas estão se preparando para a chegada do preço do carbono.

ÉPOCA: Se passarmos para um mundo onde as emissões de carbono tem um preço, quais seriam os ganhos para o Brasil? O Brasil tem a energia mais limpa do mundo. Mas não vemos as empresas multinacionais correndo para abrir fábricas aqui, de onde podem produzir para exportação produtos com menor pegada de carbono. Por quê?
White: Primeiro, é preciso considerar todo o ciclo de vida do produto. Também há emissões associadas ao transporte. Mas é claro que se o preço do carbono virar algo com impacto econômico para os negócios, dá para imaginar que isso (os investimentos em produção no Brasil) poderiam ocorrer. Por outro lado, mudanças climáticas são apenas um dos aspectos da sustentabilidade. Também há considerações sociais e de preservação dos ecossistemas. Tudo isso pesa nas decisões.

Fonte: Época

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