Pitada de sustentabilidade

Sem alterar o sabor e o preço dos seus molhos, extratos e catchups, a Cargill trabalha para reduzir o impacto ambiental da cadeia produtiva do tomate.

Boa receita: agricultores de fazendas próximas à unidade de Goiânia, da Cargill, aceitaram o desafio de tornar a produção de tomate mais ecológica ( foto: Divulgação Cargill/reprodução)

Boa receita: agricultores de fazendas próximas à unidade de Goiânia, da Cargill, aceitaram o desafio de tornar a produção de tomate mais ecológica ( foto: Divulgação Cargill/reprodução)

Uma nova receita vem sendo desenvolvida pela Cargill para fabricar seus tradicionais produtos à base de tomate de maneira a impactar cada vez menos o meio ambiente. Sem alterar ingredientes ou sabores, vários aspectos da cadeia produtiva de extratos, molhos e catchups estão sendo alterados por medidas transformadoras, que ganharam o nome de “Receita Pomarola de Sustentabilidade”. O projeto foi desenvolvido pela fabricante a convite do Walmart Brasil, que incentiva seus fornecedores a produzir seus clássicos de forma mais ecológica.

Estudo da consultoria americana Blue Sky mostra que 92% do impacto sobre o meio ambiente estão distribuídos pela cadeia de valor da rede varejista. O desafio não pegou a Cargill de surpresa, uma gigante do setor alimentício que registrou receita líquida de R$ 26,2 bilhões, em 2014. As inovações ambientais fazem parte dos negócios da empresa, que é dependente de água limpa, solo, ar e luz para produzir alimentos e rações. A sustentabilidade hídrica, por exemplo, tem sido perseguida em todas as áreas.

No ano passado, aconteceu o 1o Prêmio Cargill pelo Uso Racional de Água, no qual a fábrica de Goiânia, responsável por um terço da produção nacional de tomate industrializado, foi a vencedora na categoria inovação, com um sistema de circuito fechado de água para refrigeração na linha de produção de molho de tomate. Foi com esse compromisso de reduzir o impacto ambiental, que a Cargill entrou na 3ª Edição do Programa Sustentabilidade Ponta a Ponta. Finalizado em 2013, a empresa conseguiu mapear 22 iniciativas, mas só 10 foram selecionadas.

As demais estão em processo de desenvolvimento para a quarta edição, que está em curso. “Embora o projeto estivesse restrito ao molho Pomarola, as iniciativas implementadas e as que estão em implantação valem para todos os produtos à base de tomate fabricados pela empresa em Goiânia”, diz Márcio Barela, consultor de sustentabilidade da Cargill. Os resultados alcançados contam com a chancela do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea), parceiro do programa que atua como auditor das melhorias adotadas pelos fornecedores do Walmart.

“A Cargill conseguiu instaurar uma mentalidade de melhoria em todos os seus setores”, afirma Anna Lúcia Mourad, pesquisadora científica do Cetea. “A empresa abraçou o projeto, o que nem sempre acontece com outras companhias.” Todas as áreas atuantes na cadeia produtiva do tomate passaram por um workshop de sustentabilidade. Antes, as melhorias que a Cargill buscava eram estritamente econômicas. A partir daí, além da rentabilidade, a companhia analisa cada etapa para encontrar benefícios para o meio ambiente. Duas das dez iniciativas da “Receita Pomarola” vieram de sugestões de funcionários do chão de fábrica.

Um trabalhador notou que havia um desperdício de grandes volumes de papelão com o pacote promocional. Isso porque o processo demandava a separação manual dos produtos já empacotados nas caixas de papelão e a remontagem em outra embalagem especial. A solução foi criar uma linha de montagem só para esse pack, o que evitou o retrabalho e o descarte desnecessário de embalagens. A segunda mudança aconteceu na montagem das divisórias dos molhos. Como o produto é envasado ainda quente, as embalagens seguiam úmidas para as caixas, que precisavam de um reforço.

Com a instalação de mais secadores no final da linha de montagem, a Cargill deixou de desperdiçar tempo e material. Os números finais mostram que o caminho foi acertado: 22 toneladas de papelão deixaram de ser desperdiçadas por ano. Como o programa do Walmart exigia ações nas três etapas de produção – antes de ir para a fábrica, dentro da fábrica e depois de sair dela – a logística de transporte foi outro foco de atenção. A Cargill identificou que a contratação de caminhões de forma independente pelas fazendas produtoras de tomate limitava o transporte a 27 toneladas por viagem, em média.

Ao centralizar os contratos e padronizar o tamanho das caçambas, a empresa aumentou em cinco toneladas por viagem. Na distribuição do produto final, a Cargill implementou o rodotrem, que permite dobrar o volume de carga graças ao engate de modelos mais modernos de caminhão. O engate é recolhido para que o veículo possa ser encostado na plataforma de clientes de grandes volumes, permitindo o carregamento e o descarregamento pela parte traseira. O deslocamento dos efluentes da planta também foi repensado.

A fabricante investiu na construção de uma estrutura elevada para fazer a substituição de caçambas por carretas maiores, que podem ser carregadas por cima. Com isso, foi reduzida em cerca de 30% a quantidade de caminhões demandados para essa tarefa. Somando as três frentes de ação, deixou-se de rodar milhões de quilômetros e eliminou-se 10 mil toneladas de emissão de CO2 em um ano. Embora a tendência seja reduzir custos com o aumento da eficiência, os altos investimentos iniciais e o longo prazo de retorno pesam contra o sucesso da adoção de fórmulas sustentáveis.

“Há casos em que o ganho não é financeiro”, afirma Barela. Os resíduos orgânicos – peles sementes e ramas – que antes terminavam desperdiçados em aterros são um exemplo dessa contradição. A Cargill passou a dar um destino mais inteligente a elas, a compostagem, o que reduziu a geração de CO2. Um laboratório está estudando os resultados da compostagem para definir se ela voltará para as próprias fazendas de tomate.

PEGADA – No campo, onde já mantém um ambiente bastante sustentável, com baixo consumo de agroquímicos e fertilizantes, os olhos da empresa se voltaram para a saúde dos agricultores, que ficam diariamente expostos ao sol para cultivar o tomate. A Cargill decidiu fornecer protetor solar para seus produtores de tomate, instalados nos arredores de Goiânia, uma iniciativa que tenta evitar a incidência de câncer de pele no longo prazo.

Além das novas iniciativas que a Cargill vem adotando, a fabricante se esforça para superar um grande desafio que não está previsto no programa do Walmart como comunicar sua pegada sustentável ao consumidor. “Nossa aposta é na redução do impacto ambiental, sem alterar a qualidade e valor de venda do produto. O consumidor tende a buscar cada vez mais por isso”, diz Barela.

Fonte: Isto É Dinheiro

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